“Você sabe quem você é?” — Reflexões acerca da Natureza Humana

Talvez o saudável incômodo que sentimos diante da indagação “Quem é Você?” resida na dificuldade que encontramos em dar repostas as tantas interrogações que brotam do exercício do viver, sendo essa uma das mais inquietantes.

Há que lembramos que não encontramos a verdade (acabada, por inteiro) nas respostas, mas no aprofundamento das perguntas (somatório de pequenas vivências cotidianas). Também vale ressaltar que de nada adianta nos lançarmos a frenéticas interrogações (desgaste desnecessário), precisamos ter a sensibilidade de fazer as perguntas certas e cultivar a serenidade que nos fornece o tempo necessário para colher respostas (ainda que nos cheguem como novas perguntas). Como?

Permitindo-nos alguns preciosos momentos diários de “desaceleração” (vida interior, atenção para o interno). Só a partir desse eixo vertical que, de fato, enlaço todo o meu entorno. É desse lugar que se descortinam e desdobram-se (suavemente, sem peso, sem pressão) as questões fundamentais para a nossa realização enquanto seres humanos que somos.

  • Estou correndo desesperadamente, para quê?
  • Para onde a pressa está me conduzindo?
  • Qual o sentido do que faço?
  • O que me cabe?
  • Sou feliz?
  • Quem sou?

É inegável a multiplicidade dos nossos fazeres diários, são tantos os papéis (mulher, mãe, amiga, esposa, profissional…) que representamos cotidianamente, retrato dos múltiplos olhares (focos de atenção) que dirigimos à Vida. O nosso desejo é plural, tão plural quanto a diversidade do pensar, sentir e agir.

Há que aguçarmos o nosso senso de observação, a fim de detectar a potência oculta em cada papel que encenamos, capaz de conferir brilho ao olhar e singularidade ao fazer. Metaforicamente poderíamos falar do ator (indivíduo, que não pode ser dividido, uno, coeso) por trás do personagem (máscara, “persona” / personalidade, múltiplo e difuso). A qualidade no desempenho e desenvolvimento do papel (personagem) guarda estrita relação com o conhecimento e envolvimento com o texto como um todo (ator).

Filosofamos (naturalmente) quando associamos indagação, atenção e diálogo. Do exercício de pensar em conjunto, surgem flashes perceptivos da presença do Todo na Parte, do Uno no Múltiplo, do Macro (universo) no Micro (homem). Quanto mais profundamente investigamos a matéria, cada vez mais nos deparamos com a não matéria. E estamos falando de ciência!

Podemos fisicamente constatar a unicidade presente na multiplicidade. Quando direcionamos um único feixe de luz sobre um cristal, ele se divide em sete raios. Similarmente, a visão integral da natureza humana nos mostra transpassados por uma força que se irradia em segmentos distintos, ligando o mais denso ao mais sutil em nós. Nossas expressões física, energética, emocional e mental se comunicam com os referenciais de inteligência, amor e vontade.

Entre as tantas peculiaridades do nosso momento histórico, merece atenção especial as crescentes releituras dos ensinamentos clássicos, das antigas escolas de filosofia. Elas sugerem métodos para adicionarmos sentido e significado aos nossos dias. Ativam a luminosidade do nosso próprio olhar. Aproximam o conceito de felicidade, na medida em que nos realizamos pelo reencontro com nós mesmos.

O caminho existe, o pretenso caminhante também… Resta-nos começar a caminhada… É o nosso próprio movimento (passo, ritmo) que legitima a Trilha. Por melhores que sejam os caminhos, se não trilhados, com o passar do tempo se apagam, não deixem nem os menores rastros.

A decisão / escolha da tomada de consciência de nos percebermos já embarcados na fascinante jornada de autodescoberta é sempre nossa.

(Texto de Dezembro 2009)

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.