Como desbravadores de uma Vida que se faz presente na cadência rítmica do pulsar somos constantemente desarmados pelo fascínio e pelo assombramento. A voz maior que em nós habita — metaforicamente chamada de Sol Interno, fisicamente representado pelo nosso coração — nos lembra do necessário ajuste de ritmo e contra-ritmo. Sem ele não há fluxo, nem vida, tampouco expressão. Por mais atabalhoados e inconscientes que nos colocamos em marcha, algo nos conduz e reconduz ao longo da nossa existência, nos liberta e nos reposiciona. Início, meio e fim de todo e qualquer movimento. Esta potência orienta infindáveis intercruzamentos e costuras, rompe com amarras, faz jorrar comportas, liga dentro e fora com desconcertante desenvoltura… Tal qual a ave mítica, Fênix, renascemos das próprias cinzas, com redobradas força e exuberância. Corremos o risco, acreditamos, peitamos desafios e em meio a naturais contusões e um bocado de confusões, firmamos o pé, nos aprumamos no eixo e marcamos presença. O corpo pode até querer trégua, pedir chão, mas a alma não… Ela injeta ânimo, reorienta sonhos e aciona realizações. Coração disparado, olhar iluminado… Subimos no palco, encaramos holofotes e cumprimos com nosso papel. Viva a emoção! A vida é feita de momentos, e nós, os únicos responsáveis pelos nossos movimentos.

Música das Esferas regendo o Movimento da Vida

Em O Timeu, considerado um diálogo “dogmático”, por não se valer da dialética, Platão (428 a.C.) narra ensinamentos mistéricos, a razão se presta apenas para deixá-los um pouco mais lógicos, facilitando serem absorvidos pela mente dual. Trata da cosmogênese, onde a Música das Esferas rege o movimento da vida. O Demiurgo (Criador) se vale de seis esferas concêntricas que harmonizando seus movimentos (para cima e para baixo, para direita e para a esquerda, para frente e para trás) dão origem, no espiralado fluxo evolutivo, a sétima esfera. A cocriação se instaura… À nossa medida, somos não só partícipes como cocriadores do universo.

Nesta Dança que orienta a formação da Vida, marcam presença Padrões de Força sempre em movimento, tanto no Macro (universo) quanto no Micro (ser humano).

No Macro — Princípio da Verdade no Universo (Caibalion / Hermes Trimegistos)

“Os Princípios da Verdade são Sete; aquele que os conhece perfeitamente, possui a Chave Mágica com a qual todas as Portas do Templo podem ser abertas completamente.”

  1. Mentalismo O Todo é Mente, o Universo é Mental. O universo é uma Criação Mental do TODO, e é na mente desse TODO que nós vivemos, nos movemos e temos a nossa existência. Possibilita a compreensão dos fenômenos mentais e psíquicos, a verdadeira natureza da Força, da Energia e da Matéria se subordina ao Domínio da Mente.
  2. Correspondência O que está em cima é como o que está embaixo, e o que está embaixo é como o que está em cima. Como é no macro, é no micro. “Homem, conhece-te a ti mesmo e conhecerás os deuses e o universo”. Habilita o Homem a raciocinar inteligentemente do Conhecido ao Desconhecido.
  3. Vibração — Nada está parado; tudo se move; tudo vibra. Quanto maior a freqüência (aceleração, velocidade) maior a sutileza (desde a matéria até o espírito). Matéria, Energia, Mente e Espírito são o resultado de diferentes graus de Vibração. Quanto mais elevada a Vibração mais próximo se está do Espírito. Quanto mais baixa for a Vibração mais próximo se está da matéria, como uma rocha que vibra tão lentamente que parece estar parada. Nos permite conhecer as próprias vibrações mentais e também as dos outros.
  4. Polaridade — Tudo é Duplo; tudo tem polos; tudo tem o seu oposto; o igual e o desigual são a mesma coisa; os opostos são idênticos em natureza, mas diferentes em grau; os extremos se tocam; todas as verdades são meias-verdades; todos os paradoxos podem ser reconciliados. Opera no Plano Mental (amor e ódio, por exemplo). Pode ser aplicado no sentido de transmutar as vibrações de um polo para o outro tanto em si como nos outros (Alquimia Mental ou Harmonia por Oposição).
  5. Ritmo — Tudo tem fluxo e refluxo; tudo tem suas marés; tudo sobe e desce; tudo se manifesta por oscilações compensadas; a medida do movimento à direita é a medida do movimento à esquerda; o ritmo é a compensação. Ação e reação que se dá entre os dois polos existentes. Vagueamos de um polo ao outro, mais ou menos inconscientes, como um pêndulo. Entre o estímulo e a resposta temos a possibilidade de existir.
  6. Causa e Efeito — Toda a Causa tem seu Efeito, todo o Efeito tem sua Causa; tudo acontece de acordo com a Lei; o Acaso é simplesmente um nome dado a uma Lei não reconhecida; há muitos planos de causalidade, porém nada escapa à Lei. Nada acontece sem razão e, como existem vários planos de causalidade, os planos superiores dominam (ou causam) os planos inferiores. Por meio da elevação mental, tornamo-nos causa em vez de efeito.
  7. Gênero — O Gênero está em tudo; tudo tem o seu princípio masculino e o seu princípio feminino; o gênero se manifesta em todos os planos. Opera sempre na direção da geração, regeneração e criação. A geração de uma ideia é a formação dessa ideia; a regeneração compreende o aperfeiçoamento e o crescimento dessa ideia e, por fim, a criação é a realização completa da ideia.

No Micro — Leis da Natureza no Setenário

(Constituição e ferramenta de expressão do humano)

O ser humano, como microcosmos do macrocosmos Universo, tem sido representado em diversas civilizações, desde o Egito Antigo, com pouquíssimas distinções, por uma constituição setenária. Todos os sete veículos, desde o mais denso ao mais sutil, são regidos por Leis da Natureza, que respondem aos Padrões de Força presentes no Universo.

  1. Lei da ciclicidade ou periodicidade (físico);
  2. Lei da vitalicidade (energético);
  3. Lei da psiquicidade (emocional);
  4. Lei da organização (mental concreto),
  5. Lei da diferenciação (mente pura),
  6. Lei da iluminação (veículo intuicional);
  7. Lei da unicidade (veículo espiritual ou vontade pura).

Os quatro primeiros veículos compõem a nossa dimensão física, ao passo que os três outros compõe a nossa dimensão metafísica. Há um canal ou ponte que une e transpassa estes planos ou mundos: a consciência. Os grandes tratados mitológicos e filosóficos de todos os tempos enfatizam a necessidade de a construirmos e de fazermos dela a nossa Trilha, unindo e legitimando Terra e Céu, Matéria e Espírito, Corpo e Alma, promovendo o nosso “Segundo Nascimento”, o consciencial (espiritual ou metafísico). Conhecido como “maiêutica” na Grécia Antiga, “guerra florida” nas civilizações pré-colombianas, “despertar do sol interno” no Egito Antigo, “desabrochar da flor do lótus” na filosofia indiana e tibetana. O conceito de todas estas tradições, distantes apenas no espaço-tempo, fala de nos apossarmos da Força presente em nós, buscando o que nos faz unos, íntegros, inteiros, tornando audível a “voz do silêncio” que em nosso peito habita. Assim, a cada conquista melódica, reverberaremos o “som insonoro” que movimenta o Universo.

A maiêutica socrática (Sócrates 470 a.C.), “arte de fazer parir a alma”, inspira a dialética, uma das mais célebres ferramentas filosóficas de aproximação da verdade. A maiêutica dá à luz a novas ideias e movimentos, por meio do perguntar (ironia, em grego) destrói o saber construído para reconstruí-lo na procura da definição do conceito. A dialética, maiêutica aperfeiçoada por Platão, movimento do pensamento até a Ideia, contrapõe intuições sucessivas até se aproximarem o mais possível das essências ideais que constituem a verdade.

Plotino, neoplatônico (205 d.C.), nos fala dos dois movimentos da Alma, um descendente e inconsciente, que nos conduz da Unicidade à Multiplicidade e outro, ascendente e consciente, que nos reconduz do Múltiplo ao Uno. Este último demanda esforço. Fala de dois trabalhados: organização, como perfeito equilíbrio interno; e contemplação, como perfeita possessão de si mesmo.

O antigo e simbólico axioma alquímico, também formula um método para este “religare”, origem comum de todas as religiões. Profere: “mistures um porção de sal, com uma porção de mercúrio e uma porção de enxofre e transformarás chumbo em ouro”. Sal representa a Memória, “quem sou”. Mercúrio representa a Concentração, “onde estou”. Enxofre representa a Imaginação “para onde vou e como vou”.

Reconectados com a nossa verdadeira natureza, nossa vocação naturalmente se expressa. Com a pureza do melhor em nós, reluzimos e brilhamos tal qual o nobre metal. Está erguido, a partir de um movimento interior, o nosso real eixo de sustentação, a nossa coluna de estabilidade. Agora temos o nosso corpo, temos a nossa energia, temos as nossas emoções e temos os nossos pensamentos. Não são mais eles que nos têm. Somos nós que montamos o cavalo, nós que guiamos o elefante, e não o contrário.

Estabilidade e Precisão — Não Movimento que nos reposiciona

É o Segundo Nascimento que nos fornece a estabilidade necessária para concretizar sonhos e sermos felizes sempre, em cada etapa da nossa vida, porque desenvolve um salutar senso de liberdade e autonomia, uma melhor percepção de quem somos, de onde estamos, de para onde e de como vamos.

Leves, plenos de nós mesmos e dos mundos que em nós habitam (as tantas pessoas do Pessoa), nos movemos meio “etéreos”, quase que “encantados”… Vida a fora nossos movimentos paulatinamente detonam amplitude (sem sermos espaçosos), agilidade (que afasta contorcionismos exasperados) e precisão (espécie de firmeza desestressada, na linha de Guevara)…

Com um sorriso, senão estampado no rosto, pela ainda precária destreza em lidarmos com os mais duros desafios do cotidiano, com ele completamente escancarado na alma, nos dando a segurança e a certeza de quem segue para o alto e adiante, pois compreende que é fundamental sonhar-se, mas imprescindível fazer-se.

Precisão é saber determinar-se. A determinação requer segurança. A segurança brota do conhecimento. O conhecimento da experiência. Nada fascina tanto quanto o movimento apropriado, elegante na sua justa medida. Movimento que vale o mesmo para o corpo e a alma porque é um só, inteiro, impregnado do nosso verdadeiro nome. Movimentos, assim, transpiram veracidade. Sustentam-nos, colocam luz, brilho e transparência a tudo o que fazemos.

Estreiteza — Movimento que nos tira do lugar

Todos nós nos deparamos com lugares que se tornaram estreitos (apertados e limitadores) em determinado momento. Sentimo-nos atados, sufocados, ansiamos por amplitude, ar! O estreito, que pode estar tanto no lugar quanto no olhar, rompe com o fluxo, impede o circular, obstrui toda e qualquer ligação. Os mundos internos e externos já não se comunicam. A ponte foi dinamitada, o canal entupido. Não é à toa que sentimos nosso peito oprimido. Estamos dilacerados, completamente fragmentados. O processo de saída nos cobra coragem e muita ousadia. Há que ter clara a desconexão.

Momento de Ligação

O meu maior e mais profundo desejo, para mim e para cada um de vocês, é que o assombro desconcertante da estabilidade oriente tanto o movimento quanto o não movimento. Que cada vez mais percebamos os mundos exterior e interior, não só interligados, mais decorrentes um do outro. Que desde o menor gesto e a mais tímida fala, nos permitamos estar impregnados de força, vida e energia… Impregnados de nós mesmos.

Trata-se, indubitavelmente, da maior das nossas autorias, impossível de ser plagiada, contestada ou contida. É o que nos cabe enquanto humanos!

Bibliografia para Aprofundamento:

O Caibalion / Hermes Trimegistos

O Timeu — Série “Diálogos” / Platão

A Doutrina Secreta / H.P. Blavatsky

Ísis sem Véu / H.P. Blavatsky

A Tradição e As Vias do Conhecimento / Fernando Schwarz

Nota:

Texto de Março de 2009, material de apoio de aula inaugural ministrada para a Licenciatura em Dança da Escola de Belas-Artes / UFMG.

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.