VIAJANTES NO TEMPO

(escrito em Junho de 2014)

Acordei meio estupefata, contente embora fatigada. Foi intenso o vivido. A firme convicção de que todo o declínio civilizatório era ocasionado por divergências de toda espécie que conduziam a completa fragmentação do olhar e consequente perda de referenciais, certezas e sonhos me acompanhava…

Roma antiga. Eu convivia, me ocultava, sofria e fugia em meio a cristãos primitivos. Não compreendia como hoje o Oriente é tão facilmente esquecido como berço do pensamento cristão. Jesus, um revolucionário, por diversas épocas fora tratado como rabi. Saul, cujos textos — epístolas — antecederam em muito o evangelho — provavelmente o inspiraram — embora hoje apareçam depois dele, foi rebatizado como Paulo.

O politeísmo aparente de um Egito, agora decadente, ofuscava a nitidez da raiz única da qual emanam vários raios de expressão, inteligências da natureza orientando o florescimento da Vida e a jornada da humanidade em direção ao encontro do melhor de si mesma, a caminho do Pai.

Já enfraquecido este conceito é absorvido pelo mundo grego que, indubitavelmente, deixa de lado boa parte dos resíduos da mística e o impulsiona através da razão. Razão que com o passar do tempo é tingida pelas muitas incoerências que brotam de vicissitudes humanas mal enfrentadas e resolvidas.

Dessa fonte bebe o mundo romano, ávido por bravatas e conquistas. Sua praticidade é corroída por medos e ganâncias desmedidas. O diferente ameaça a potência construída, precisa ser contido logo, antes que os alicerces da cultura mostrem-se assustadoramente frágeis e insuficientes.

Quando se tem egoisticamente o poder nas mãos — poder instituído e não natural — amedronta a mais remota possibilidade de insurreição em prol da potência, autossuficiência e liberdade de um povo, que é único e não respeita fronteiras.

Japão dinástico. Sentada junto a outros, ouvia atentamente um diálogo e me surpreendo quando olhares se voltaram a mim, ao comentar em voz alta, embora falasse comigo mesma, que a filosofia que estavam propondo era a do shintoísmo: forte ênfase na pureza espiritual e na celebração de Kami — espírito, essência, divindade — uma só força presente em toda a natureza, através de manifestações peculiares. Montanhas, rios, relâmpago, vento, ondas, árvores, rochas, ser humano… Mais uma vez o politeísmo, aparente.

Em alguma dimensão indefinida, fora do espaço-tempo. Amedrontada ao extremo, mas certa de que cumpria com o meu papel e fazia o que devia ser feito, cruzava um rio de águas escuras no dorso de um colossal crocodilo, o mesmo que ceifara a vida de muitos ao meu redor.

Quando nos aproximávamos da outra margem, acordei. Senti meu corpo, minha cama, companheiro ao meu lado. Mais do que saber onde eu estava — minha casa, meu filho dormindo no quarto contíguo, as cachorrinhas que sem demora iniciariam a algazarra — eu constatei solidamente que todos nós não passávamos de viajantes no tempo. Serenamente, sorri.

Artes, Ciências e Humanidades - Dinamismo e Incertezas - Filosofia e Espiritualidade - Cidadania

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