Talvez fosse tarefa mais confortável tratar da temática alicerçada em alguns papéis existenciais que visto corriqueiramente e me permitem ampliar movimentos sem grandes apertos: a pesquisadora, a filósofa, a terapeuta… Se por um lado neles me acompanha o enraizamento protetor e fronteiriço das teorias aplicadas, por outro me afastam da abertura necessária para expansão perceptiva plástica que brota do livre circular e faz de mim representante singular do humano feminino mulher: meu lugar de experiência, de escuta e de fala.

Há muito percebo a ironia contida na nossa maior facilidade em despir corpos do que desnudar almas e ideias. Justo por esses movimentos sofrerem pressões de ordem histórica, religiosa, política e cultural, aumenta consideravelmente a improbabilidade de inexistir uma real possibilidade de interseção positiva entre eles…

Alerto que não faço o menor juízo de valor, apenas avalio o assombro que me causa as possibilidades não exploradas no território do existir. O quanto nos permitirmos tolher por freios socialmente agendados que estigmatizam quereres e entregas. O mundo já anda pesado demais para suportarmos a carga adicional de não sermos e expressarmos quem somos.

Muito provavelmente reflexões como essas brotem em alguns de vocês que, como eu, sentem falta do toque neste necessário distanciamento social que pode não só aguçar o devaneio imaginário e desvendar formas diversas de liberdade na clausura, como também qualificar o reencontro.

Quando sensorial e abstrato andam juntos, não raro se abraça longamente amigos e bichos… se conversa, inclusive, com pedras e plantas. Na gente ronda um vazio nostálgico que clama por preenchimento, por se sentar em círculo ao redor de fogueira, sob a luz da lua e das estrelas, trocar olhares, impressões de mundo… e no calor dos corpos se deixar guiar por sons, cheiros e sabores… sem pressa, na cadência rítmica do pulsar.

Em que momento deixamos de seduzir e de sermos pela vida seduzidos?! Guardaria relação com a distopia que violentamente fragmenta e reduz o pensar, o apartando do ser e do existir até dele só restar pesar?! Do que reiterada e alucinadamente fugimos, da morte ou da vida, do outro ou da gente?!

Não transformaremos este mundo sem transformarmos a nós mesmos. Sexualidade é pulsão de vida! Vontade de potência que anseia por promover a junção entre ser e estar menos rompido e corrompido no aqui e agora. É parte integrante do que nos constitui. Como a expressamos ou canalizamos sua energia é de foro íntimo, escolha nossa.

Mas, pondero, ainda que os integre, a sexualidade traz em si mesma a possibilidade de transcender genitálias, poros e células… Ela se relaciona com os ciclos, com os giros da Terra ao redor do Sol e dela mesma, com estações do ano, com dia e noite, com cheias e vazantes, com o inspirar e o expirar do próprio Tempo… Tanto se mostra no agito de grandes metrópoles quanto no mais bucólico dos campos. Se faz presente em todas as eras e idades. É genuína, legítima, profunda e visceral, ainda que nem sempre assim se apresente.

Queremos amplitude, então sejamos nós a amplidão!

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.