O SILENCIAMENTO DAS MULHERES

O universo sabe pregar peças... Em meio a Pandemia Covid-19, gratas surpresas: o distanciamento social nos faz estar juntos. O meu nome foi lembrado para participar de uma live com o tema que dá nome ao artigo. Recebi o convite após abrir arquivo que tratava da ancestralidade feminina, a cura advinda do poder das mulheres que nos cercam... Impossível deixar de sorrir. Agora é entrar na brincadeira...

Antes de estabelecer meu lugar de fala, registro que o tema mexe com minhas entranhas. Sinto brotar com uma força avassaladora toda vez que, como mulher, detecto o intuito (interno ou externo) de ter a minha voz calada. A energia que mobiliza tamanha flutuação é tanta que tomo distância para perceber a vizinhança (o entorno), para bloquear o impacto (emocional) e fazer os ajustes de leitura e resposta necessários.

Falo como mulher que cultua a ancestralidade e a força de tantas outras mulheres que trago dentro e que inspiram minha caminhada, seja por laços sanguíneos ou afetivos. Aliás, sempre percebi os primeiros ligados a afetividade. Não restrita aos sentimentos prazerosos, mas englobando todos aqueles que nos colocam diante da possibilidade de aprendizado por meio da experiência. Território que descortina a plasticidade inserida na mudança, na transformação e na transmutação.

Falo como mulher que, a partir do feminino (que trago, sou e estou) busca a relação com o masculino (que também integro), absorvido em boa medida dos homens com os quais se relaciona ao longo do existir, por meio dos diversos papeis que representa.

Falo como mulher que se esforça por enxergar, além da exuberância das ramagens e distintas copas, as raízes que correlacionam as árvores e fazem nascer as florestas.

Trago comigo a constatação de que muito da aridez humana, do deserto afetivo no qual agonizamos enquanto sociedade, é proveniente da falta de um olhar mais amplo e interligado, capaz de integrar, diferenciar e transcender percepções singulares de realidades.

Seguindo com a metáfora da floresta, para que ela exista todos seus componentes, ainda que em simbiose (e aí existem tipificações diversas que não me cabe tratar agora), precisam ser entendidos como individualidades legítimas dentro do conjunto.

Para crescer juntas e formar uma floresta, as árvores precisam de espaço para absorver a luz do sol, a água da chuva e os nutrientes do solo. Necessitam de um distanciamento ideal umas das outras, que possibilite o desenvolvimento e as permita contornar inércias a partir da natural comunicação com diferentes galhos. Viver implica em se deixar tocar pela vida.

Negar isto é dizer não a maravilha que é a diversidade, é não legitimar a possibilidade de uma construção conjunta, é silenciar a existência.

Dentro deste contexto, o enfoque que trago é de que o silenciamento das mulheres (sim, deve ser veementemente combatido) advém de um silenciamento do feminino. Explico... A minha tentativa, para resgatar o humano não raro por elas soterrado, é de um respeitoso e momentâneo afastamento das visões sociológicas e antropológicas de matriarcado e patriarcado, de matrilinearidade e patrilinearidade. Atoleiro que pode sufocar a voz e inviabilizar legítimas expressões. Aí cabem as multifacetadas questões de gênero, os diversos mitos e tabus a elas associados. O quanto, na caracterização do que vem a ser papeis de homem e mulher, a cultura conversa com a geografia e com o momento histórico.

O feminino é uma força poderosa que caracteriza, junto ao masculino, a essência da natureza. Dois princípios que se movimentam da multiplicidade à unicidade, em íntima relação com a ordem e o equilíbrio do universo, com o espaço e o tempo. Opostos aparentes que se procuram e encontram na busca da essência de si mesmos, assim com yin e yang formam o tao. A semelhança de um pulsar, as sociedades oscilam entre expansão e retração, guerra e paz, conquista e preservação.

Distintas civilizações, respeitadas as particularidades de cada qual, sinalizam um triplo aspecto para o ideal feminino, onde se mesclam e interagem os planos físico, psíquico e espiritual.

Físico, como contribuição material, função geradora de vida: ideias, valores, pensamentos. Psíquico, como contribuição emocional, função educadora: como lidar com o que foi gerado. Espiritual, como contribuição mental, função integradora: ponte entre mundos visível e invisível, sensível e inteligível, concreto e arquetípico.

Na civilização egípcia, por exemplo, falava-se em mulher mãe, mulher esposa e mulher sacerdotisa. Detalhe fundamental: o adjetivo não reduzia, mas ampliava o sujeito mulher. A primeira motivaria o exercício da vocação e a melhoria do mundo. A segunda cultuaria o amor que promove a união a partir da diversidade e faria da casa um lar, enquanto espaço sagrado. A terceira utilizaria o veículo da intuição e da mística, dissiparia o ilusório e acessaria o real, preservaria a ética e a moral. As três conformariam o ideal feminino, representadas pelas características de identidade, generosidade, pureza e mística, sólidas bases para a ordem cósmica penetrar no indivíduo e chegar até a sociedade.

Posto isto, não causa tanta surpresa a mulher ser silenciada ao longo da história, pelo medo ao mistério que o feminino representa, medo ao poder que oculta, a ligação estreita com a natureza, a ponte entre céu e terra, que não só gera e nutre corpos, mas também ideias. Para tanto, questiona, pondera, rompe, transgride e revoluciona. Potestade assustadora, não só para os homens, também para nós, mulheres...

Este é o espaço que busco abarcar. Com atenção e vontade redobradas reafirmo constantemente o compromisso de abraçar o feminino, que é feminista, mas transcende a mulher por abordar e acolher o humano.

Que a gente possa ampliar a voz enquanto mulheres, sair da invisibilidade social que nos foi e ainda é imposta pelos que temem a força que representamos. Mas antes de tudo, que tenhamos o distanciamento suficiente para perceber (em nós e no outro) quando esta potência (que nos é tão própria) é manipulada para insuflar energias em corpos já necrosados, que precisam fenecer para dar lugar ao novo.

Até domingo muitas águas irão rolar, mas fica aí replicado o convite generoso do amigo recente, Altair Sensei, monge zen-budista da tradição soto-zen, a quem carinhosamente agradeço.

Ana Rita de Calazans Perine, 28 de Julho de 2020.

Artes, Ciências e Humanidades - Dinamismo e Incertezas - Filosofia e Espiritualidade - Cidadania

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