O CINZA DOS DIAS

Caso alguém se perceba questionando o sentido dessa vida, a direção que tomou o mundo, os valores que norteiam as relações… E, imerso em mais ou menos agudas dores, já não encontre momentaneamente justificativa para sorrisos, esperanças e continuação de jornadas… Saiba que tal incômodo é um dos maiores assombros filosóficos: legítimo, natural, humano!

Analisar a existência pode romper com o frenesi anestesiante da normopatia que captura e aprisiona na superfície e no supérfluo as atenções. Pensar incomoda e pode doer bastante! Imbricado no sentir e fazer, não raro questiona certezas e mostra frágeis os alicerces de convencionadas verdades… Privilégio em uma época que insiste em ostentar quase tudo, exceto o que se é, tamanha a distância de quem somos e do que nos cabe.

Aos amantes de mergulhos profundos, por experiência própria, uma sugestão singela: tomem e conheçam seu fôlego! O ar viabiliza deslocamentos no espaço, há que computar o tempo de volta.

Mergulhem nas vicissitudes humanas, mas sem desconectar: do calor e brilho do sol, do soprar do vento que balança as folhas, do trinar dos pássaros, do ruidoso silêncio das cidades, das estrelas presentes no breu da noite (ainda que nosso olhar não as alcance)…

Mesmo com tanta dissonância, a consonância se faz presente e ressoa… No olhar profundo dos seres que a gente ama (por vezes, o bichinho de estimação que nos acolhe em aconchego), na doce espontaneidade da criança, no rompante conquistador do jovem que mede forças com o meio, na serenidade madura de quem já desvendou (na caminhada) os segredos do tempo e os mistérios do caminho.

Contemplação e questionamento permitem a combustão que cria, que transmuta estados de matéria, que gera energia. Instantes que nos reposicionam e iluminam o cinza dos dias. O peito expande, a gente respira, o sorriso brota na vazão pacificada das lágrimas… Encontramos razão para acreditar que vale a labuta. Dirigida a nós mesmos, envolve o mundo e o outro como resultado, já não mais colide.

As ferramentas estão posicionadas, é questão de sentir seu peso e buscar nosso modo de manejá-las. Não estamos sós, temos e fazemos história… Muitos percorreram, percorrem e percorrerão esse caminho. A gente inspira: sempre é tempo de dar as mãos e, sim, podemos fazer hoje, do amanhã, outro dia!

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Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

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Ana Rita de Calazans Perine

Ana Rita de Calazans Perine

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

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