NOTA DEZ

Dez foram os encontros, dez as oportunidades de ampliar mundos e nos fazer um pouco mais presentes. Aguçamos leituras de contextos, exercitamos formas outras de estar, sem deixar de ser.

Individualidades oceânicas espraiaram-se generosamente na vazão coletiva de fazer e aprender juntos. Respeitamos tempos, espaços e comandos. De bom grado, em confiantes acordos tácitos.

Com a entrega ao processo, ondas desaguaram na gente, ora como tormenta, ora como calmaria. Incomodados ou fascinados, nunca indiferentes. Soubemos não só sobreviver como tirar proveito da travessia.

Ingressei buscando maior materialidade, canalização corporal (sensorial) às abstrações que me são próprias. Meu corpo, tolhido e tiranizado em tempos de exceção, farto de tamanhas contenções, clamava por expressão, toque, contato, chão.

Pina Bausch, em meio a padrões de repetição, destamponou o mote do movimento. O grito contido que libera a ação. O salto felino que liga a terra ao céu.

Jerzy Grotowski desprofana a vida. Com a rica pobreza, ostenta o essencial. Imerso no sagrado, promove reposicionamentos. Sentimos na pele o menos sendo mais.

Denise Stoklos nos oportuniza revisitar Clarice e Elis. Inspirados pelas três, manifestamos o que para nós é verdade: incômoda, doída, potente, visceral.

Jacques Lecoq, mergulhando na neutralidade, pacifica o pulso e nos aproxima da eterna força lúcida do amor. Sacraliza o cotidiano, pleno do ineditismo que se desprende em meio ao fluxo da existência.

Susano Correa dilacera para interligar, desfragmenta para equalizar. Dividi para melhor observar o que é em nós força e vulnerabilidade. E assim, na complementaridade, poder somar.

Konstantin Stanislavski aponta disciplina, constância e perseverança na arqueologia do personagem. Um constructo que se dá do múltiplo ao uno, da periferia para o centro, do externo ao interno. Como um pulsar, um respirar, ator encarna personagem em meio ao cenário. Facetas nossas o viabilizam, assim como a vida confere existência a quem somos.

Falya Ostrower potencializa o belo ao correlacionar beleza com verdade da criação. Nossas verdades dialogam com as referências que trazemos e nos inspiram a inspirar.

Peter Brook conduz os limites do teatro à transcendência. Leva o palco para o espaço que estamos, nosso lugar de presença. Nele nos encontramos, também, por encontrar o outro. Espaços pequenos, ainda que possam nos desestabilizar, favorecem o necessário enraizamento para desdobrarmos em aberturas, descortinando amplidões.

Bertolt Brecht leva a arte bem além do entretenimento. Humanamente insere a dimensão sociopolítica em seu fazer, instiga seus interlocutores. Traz a plateia para o palco, a insere na cena, posição que lhe permite detectar problemas e se comprometer com soluções.

Nesses dez encontros, ainda que vestidos com roupas pretas, pudemos nos sentir furta-cor. Tal qual prisma que, com a incidência de luz, se abre em matizes várias. Caso a versão policromia ainda não tenha se feito plena em nós, será questão de tempo. Saímos menos empoeirados, nos permitimos ser espanados, juntos reconfiguramos tônus e brilho próprios.

O que me toca difere do que me cabe, ainda que o abrace. O que me toca é o que me afeta, o que me converte em sujeito da experiência. O que me toca também me muda, transforma e transmuta.

A Oficina Criador — idealizada e conduzida por Lisi Berti e viabilizada por todos nós que a experienciamos — me tocou. Aflorou minha percepção e vivência do teatro como refino de estar e me sentir viva. Meu corpo foi mobilizado a facilitar ainda mais minha expressão.

Se eu tivesse que elencar, dentre os personagens percorridos os mais marcantes para mim: Pina, Brecht e Lecoq. A partir da minha trajetória os percebo intimamente correlacionados e triangulando em mim. Respectivamente, como: corpo (o que me move), mente (porque, quando e como me movo) e espírito (quem me move).

Muito, muito obrigada a todos vocês. Saibam que, depois desses meses juntos, minhas segundas-feiras à noite chegarão com o perfume residual de saudade.

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Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

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Ana Rita de Calazans Perine

Ana Rita de Calazans Perine

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

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