Nietzsche nos conduz a refletir, em “A Gaia Ciência” (1882), que nós, humanidade, rompemos o laço com o sagrado, tamanha inconsciência… Deixamos de lado o significado e tudo o que nos é, de fato, importante (e vital) em troca da correria desenfreada pelo urgente… Matamos Deus. “Deus está morto!”

Não o Deus estereotipado. Mas o Deus como Inteligência que tudo permeia e orienta… Princípio organizador e aglutinador, dentro e fora de nós… Potência irradiada a vida como um todo, manifestada e não manifestada… Quando por nós percebida, capaz de conferir sentido e significado muito peculiares ao nosso dia a dia…

O que tem isso a ver com o Bom Velhinho?!

Na raiz do Natal vibra o emblemático mito da Luz que aquece o coração dos homens e guia seus passos na direção do aprimoramento enquanto espécie. De certo modo a inspiração da figura natalina que inunda o imaginário coletivo, Papai Noel, como Nietzsche, nos lembra de olhar um pouco além de nosso próprio umbigo, encontrando dentro a motivação necessária para transformar o entorno, levando um pouco mais de verdade, alegria, justiça e harmonia as nossas relações. E assim atuando, resgatar a magia perdida, sacralizando o cotidiano e possibilitando a dimensão divina ressurgir…

Corações se aquecem. Olhos se iluminam. O Menino nasce. E o Natal acontece!

Metaforicamente, o Menino Deus é o impulso que a cada um de nós compete resguardar para se fazer homem. Mais uma vez lembro Nietzsche, agora em “Ecce Homo” (1908).

Sabemos o quanto a loucura cotidiana nos rouba de lucidez. Estudos apontam, há anos consecutivos e de forma crescente, que o final de ano é notoriamente marcado pelo aumento significativo de estressores: relatórios anuais de projetos a serem fechados e outros tantos encaminhados para o próximo ciclo, preparativos das festas e férias, gastos excessivos…

Ansiedade, angústia, correria, irritação, impaciência acentuada… Combina?! Não. Acontece?! Sim.

É normal, um conceito estatístico, mas não é natural! O que estamos matando em nós?!…

Guerras publicitárias, centros comerciais lotados, congestionamentos na mesma proporção da falta de cortesia e da legitimação do outro. Novamente… Eu e o meu próprio umbigo!

O cardápio escolhido para as ceias e a parafernália a ser embrulhada e ricamente adornada com suntuosas fitas em nada lembram o laço perdido. Aquele onde não importava tanto a quantidade das luzes e o tamanho do pinheiro da sala de estar, mas o aconchego e a proximidade dos que se querem bem e naturalmente se buscam. O modelito a ser usado e o espumante a ser consumido, meros coadjuvantes…

A essência estava lá, família e amigos reunidos. O Menino presente! Mais um ano de esperança para lhe darmos em nosso coração guarida. E assim o fazendo, paulatinamente crescermos como seres humanos que somos. Todos singulares, claro, mas interconectados e interdependentes.

Assumamos o risco de, como Nietzsche, em plena lucidez ser tachado de louco. Poucos perceberam a profundidade do filósofo ao tratar do arquétipo do super homem e da necessidade de compreendemos a realidade viva que a tudo e todos envolve. No sentido, inclusive, de apaziguarmos nossas emoções e cultivarmos pequenas grandes certezas que fornecem a segurança necessária para continuarmos em movimento rumo à conquista de nós mesmos.

Quantos foram os que acusaram de excessiva ou muito pouco conveniente a generosidade ética dos “Papais Noéis” que heroicamente teimam em ainda marcar verdadeira presença nesse mundo a fora…

Nietzsche e o Bom Velhinho nos lembram de que a chave da mudança está em nossas mãos, para o bem e para o mal. Não temos apenas o poder da morte, temos o poder da vida! E ele é eterno, sempre nos acompanha, basta lembrarmos dele.

Que neste Natal, através de nosso fraterno e cuidadoso olhar, o Menino adormecido em nós desperte! E reoriente nosso caminhar ao longo de 2013, fazendo dele um real Ano Novo, porque revitalizado pelo movimento do nosso melhor.

Que a isso se brinde. Que a isso se faça festa!

(Texto de Dezembro de 2012)

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.