NEUTRALIDADE DO AMOR

Hoje amanheci pensando no Amor, a grande cola do universo, o que dá a liga, o que junta em um só enredo histórias diversas. Ponderava sobre a neutralidade que o possibilita… Da zona mais neutra em nós mesmos, região que pacifica e equaliza energias que nos chegam do meio, sinto que é onde o limite deve ser imposto. Tanto em relações horizontais quanto verticais, tanto neste quanto em outros planos. Não se trata do território da indiferença, mas do centro da livre potência.

Liberdade, uma das nossas maiores contradições… Mesmo ansiando por ela, o pânico nos invade diante da real possibilidade de experiência. Fugindo do encontro e de enfrentamentos com a gente mesmo, o outro passa a ser nosso alvo. Transferimos culpas e responsabilidades na mesma medida em que cultivamos mágoas, rancores, autopiedades… Desequilíbrios de toda ordem que retroalimentam um mórbido círculo vicioso de exasperações emocionais. Explosões irascíveis, perversas, geradas e tragadas pela nossa própria sombra. E a gente, sem perceber que cria e se locomove por mundos distintos, a depender da frequência que imprimi as relações (qualidade das interseções), extenuados e amedrontados concentramos no fenômeno, alimentamos o fenômeno, fazemos crescer tanto o fenômeno que nem mais o menor resquício de quem o causa visualizamos.

Endiabramos o outro sem perceber os demônios que cultivamos em nós. Verdadeiro círculo tragicômico de horrores. Um mercado sem igual para a tirania do capital e mercancia da fé… Seja na arte, na ciência, na política, na religião ou na filosofia. Mais uma vez, responsabilidade transferida.

Não se trata de imputar descrédito a essas expressões legítimas… Pelo contrário, trata-se desses movimentos respeitarem e acolherem a singularidade humana. Os movimentos como correntes oceânicas de um mar passível de ser por ela singrado, já que nesse mar a singularidade é: barco, vela, leme, bússola e farol.

Quem sabe não seja na própria singularidade que habite, ainda que em latência, a neutralidade do amor… Espécie de câmara com gravidade zero, onde prejuízos são suspensos, emoções calibradas, armistícios declarados e convívio reconfigurado. Nesse espaço não há dentro e fora, sagrado e profano, bem e mal. Não se compra guerra, se celebra paz. O eu e o outro silenciam e, assim, outorgam voz ao nós. A vida — um continuum que não se fragmenta, mesmo que ora se mostre um, ora se mostre outro — lá não pesa. O fluxo é sustentado acolhendo novos ritmos, ajustando movimentos e preservando tensões justas para que a música se faça.

Curioso, me parece aparentada com consciência… Seria a consciência plena um mergulho na neutralidade do amor?! Ela não prescinde de estados emocionais. A afetividade nos dá um sinal que, devidamente compreendido, nos conduz à consciência e a capacidade de alterar rotas e condutas. Se a neutralidade do amor calibra emoções, ela ajusta as leituras que fazemos de nós mesmos e do mundo, as ajustando aproxima realidade vivida da pensada e sentida, nos habilitando a melhor avaliar caminhos, caminhantes e caminhada. Podem não ser siamesas, mas parecem guardar o mesmo DNA…

Como defendem alguns, até podemos ser instrumentos uns dos outros nessa grande orquestra que é a existência. Mas o que não dá para declinar é da notação, execução e regência de nossa própria partitura. Com escuta atenta para a vizinhança, detectando também o tom e o tempo dos outros instrumentos, ritmo e contra ritmo marcam o compasso e, de repente, em uníssono, retumba a polifonia. Inebriados por uma beleza que a gente desconhecia, embora sempre nos embalasse, a salva de palmas nos desperta. Missão cumprida.

Em tempo — A leitura do Amor como produto da Ocitocina (e não o contrário) é no mínimo risível. Se assim fosse, como dita a piada corrente, poderíamos tranquilamente substituir as terapias por reposições hormonais. Outra tentativa de transferência…

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Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

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Ana Rita de Calazans Perine

Ana Rita de Calazans Perine

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

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