NEURÓBICA, LEONARDO E RENASCIMENTO / Os Sete Princípios Davincianos como método para desenvolvimento da inteligência

Dia desses mais uma vez me deparei com a neuróbica ou neurônicos aeróbicos, nova forma de exercício cerebral projetado para manter o cérebro ágil e saudável, a partir da quebra da rotina e criação de novos padrões de comportamento, capazes de estimular outras sinapses. Mudar trajetos, escovar os dentes com a mão contrária, se vestir de olhos fechados, ver fotos e ler textos de cabeça pra baixo…

Em tempos de Alzheimer e outras demências, o exercício cerebral sempre adquiri tônus renovado. E a medida em que aumenta significativamente o potencial de propagação da notícia, não deixa de ser positivo.

Mesmo assim, confesso, me incomoda a falta de menção aos precursores no tema…

Inevitável ligar o assunto a um conceito amplamente defendido e aplicado por Leonardo Da Vinci, em pleno Renascimento. Consta no seu diário (manuscrito Codex Atlanticus) que a estrutura do conhecimento é composta por sete princípios, entre os métodos de desenvolvimento aparecem a prática da ambidestreza e de outros mecanismos que nos impelem a sair da rotina do lugar comum de agir, pensar e ser.

O Renascimento, redescoberto, se torna célebre na era digital. Em 1994 Bill Gates arremata o manuscrito. A partir daí os modernos, apesar de frequentemente irem a Leonardo, pouco mencionam a jornada.

O termo Renascimento, designando o tempo que volta, foi cunhado por Balzac, em 1820. Com epicentro na Península Itálica, irradiado por toda a Europa, ele não possui limites cronológicos exatos. O apogeu se dá no séculos XV e XVI, embora a emergência se dê já no século XIII. Marcam o final da Idade Média a arte flamejante e a produção literária extraordinária.

Fato é que o movimento renascentista, que tem em Leonardo um de seus maiores expoentes, transcende artes e a arquitetura e amplia a percepção de Homem e Mundo. O Humanismo e o Ideal da Universalidade eclodem com força, viabilizados pelo mecenato.

Pintor, escultor, anatomista, astrônomo, engenheiro, matemático, músico, geólogo, naturalista, arquiteto, inventor… Essa genialidade toda tem um método criterioso e cotidianamente vivido. São os 7 Princípio Davincianos:

1. Curiosidade (curiositá) — Atitude de aproximar-se da vida com uma curiosidade insaciável e a busca da aprendizagem. Não se limita aos estudos formais, acompanha e amplia a experiência cotidiana. Constante interrogar-se como meio de vencer a opinião vulgar (ponto de partida do processo dialético).

2. Demonstração (dimostrazione) — Compromisso de colocar à prova o conhecimento através da experiência, da persistência e da disposição de aprender com os erros.

3. Sensação (sensazione) — Contínuo refinamento dos sentidos, especialmente da visão. Sentidos com chaves para abrir as portas da experiência, transformando intuições em conhecimento e, finalmente, permitindo a compreensão das leis da natureza. O homem comum: “olha sem ver, ouve sem escutar, toca sem sentir, come sem saborear, se move sem consciência física, inala sem perceber os odores ou fragrâncias e fala sem pensar”.

4. Esfumado (sfumato) — Vontade de aceitar a ambiguidade, o paradoxo e a incerteza. Uma questão de incubar nossas intuições. Pausas, espaços entre esforços conscientes, permitem percepções e ideias.

5. Arte / Ciência (arte / scienza) — Desenvolvimento do equilíbrio entre ciência e arte, lógica e imaginação. Pensar com a totalidade da mente.

6. Corporalidade (corporalitá) — Cultivo da graça, ambidestreza, condição física e porte. Aplicada tanto ao corpo como biorobô de experiências e ações cotidianas, quanto ao corpo como elemento simbólico (dois canais da corporalização de ideias).

7. Conexão (connessione) — Reconhecimento da associação de todas as coisas e de todos os fenômenos entre si. Pensar em termos de sistemas. Homem como Micro do Macrocosmo.

Poderíamos reativar o legado do Renascimento, do triunfo da sabedoria e da luz sobre o temor e a obscuridade, resgatando o ideal humano que se desenvolve em cada um de nós, a partir de um genuíno interrogar-se e de um posicionamento mais consciente (coerente) diante da vida. Na medida em que nos permitimos experiências de sentido e significado, renascemos como seres humanos que somos. Ativamos nossos poderes latentes. Conquistamos a felicidade pela conquista de nós mesmos.

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.