HÁ ALGO DE PODRE NO REINO DA DINAMARCA”

Esta sentença tem em mim ecoado nos últimos dias com maior força, não que seja dada a teorias conspiratórias, mas porque a exaustão me acompanha. Caminha ao meu lado o incômodo do enfaro. O fastio tem brotado do monitoramento desapaixonado (não sem muito esforço) dos movimentos políticos deste conturbado cenário nacional, onde, perdoem-me a universalização da expressão, mas o momento requer: pastamos demais e ruminamos de menos.

A arte da ponderação anda engessada. Exercitar pontos de observação distintos sobre o mesmo fato, com contextualização história, marcada por trajetórias humanas singulares que se pluralizam na relação, as muitas interseções estabelecidas, parece coisa esquecida.

De certo modo se explica, em um cenário de tantas incertezas, mas não se justifica. A Vida é dinâmica, deixarmos de conectar os acontecimentos às tessituras dos mesmos, nos impede de detectar a malha, de ampliar o cenário e nos dá a falsa e contraditória sensação: que a nós só cabe o papel de reagente ou que precisamos agir como se uma ilha fôssemos, concentrados única e exclusivamente na defesa das nossas próprias subsistências, tão reiteradamente ameaçadas. Nunca é demais lembrar que até mesmo ilhas nascem e morrem conforme a movimentação das correntes marítimas…

Quando Shakespeare introduz o alerta título na estrutura de pensamento de Hamlet (“Há algo de pobre no reino da Dinamarca” / Ato I, Cena IV), novas vizinhanças são mapeadas e, a partir delas, ajustes e sustentações reconstroem a trama e chegam ao excerto que anexo ao final do artigo (“Ser ou não ser, eis a questão” / Ato III, Cena I).

Seguindo o mote… Por aqui o odor dos fatos alerta para que sejam consumidos com cautela, sob risco menor de fortes náuseas.

A quem convém fazer justiça neste exato momento?!… Porque só agora, se o processo contra o ex-presidente Lula se mostrou inconsistente e corrompido deste o início?!… Tentativa desesperada de encobrir crimes recorrentes contra a humanidade?!… O clássico dividir pra conquistar?!… Haverá moeda de troca?!…

Não tenho respostas. Sigo atenta, agarrada na poltrona, cinto de segurança afivelado, porque a turbulência já se mostra antes mesmo da aeronave alçar voo.

Aos que se opõem aqueles que assolam o Brasil e o Povo Brasileiro, onde me incluo, que a gente não se permita ludibriar por meias verdades corrosivas que equalizam caráter desferindo golpes, buscando nivelar na mentira trajetórias abissalmente distintas… Da mesma forma, não caiamos na armadilha de dar voz a insignificância de quem suporta pseudo estatura apoiada na desqualificação dos demais. A cada um de nós cabe garantir, hoje, o sonho de amanhã. Em meio ao luto e ao peso dos dias, que a gente resista e persista! Que saibamos reconhecer na nossa estrutura os condutos necessários para movimentar e garantir o desenvolvimento sustentável a partir de valores humanos em constante dialógica com naturais transformações sócio-econômicas e político-culturais. Não posso falar por vocês, falo por mim: BASTA! Eu quero meu País de volta…

“Ser ou não ser, eis a questão: será mais nobre

Em nosso espírito sofrer pedras e setas

Com que a Fortuna, enfurecida, nos alveja,

Ou insurgir-nos contra um mar de provocações

E em luta pôr-lhes fim? Morrer… dormir: não mais.

Dizer que rematamos com um sono a angústia

E as mil pelejas naturais-herança do homem:

Morrer para dormir… é uma consumação

Que bem merece e desejamos com fervor.

Dormir… Talvez sonhar: eis onde surge o obstáculo:

Pois quando livres do tumulto da existência,

No repouso da morte o sonho que tenhamos

Devem fazer-nos hesitar: eis a suspeita

Que impõe tão longa vida aos nossos infortúnios.

Quem sofreria os relhos e a irrisão do mundo,

O agravo do opressor, a afronta do orgulhoso,

Toda a lancinação do mal-prezado amor,

A insolência oficial, as dilações da lei,

Os doestos que dos nulos têm de suportar

O mérito paciente, quem o sofreria,

Quando alcançasse a mais perfeita quitação

Com a ponta de um punhal? Quem levaria fardos,

Gemendo e suando sob a vida fatigante,

Se o receio de alguma coisa após a morte,

–Essa região desconhecida cujas raias

Jamais viajante algum atravessou de volta –

Não nos pusesse a voar para outros, não sabidos?

O pensamento assim nos acovarda, e assim

É que se cobre a tez normal da decisão

Com o tom pálido e enfermo da melancolia;

E desde que nos prendam tais cogitações,

Empresas de alto escopo e que bem alto planam

Desviam-se de rumo e cessam até mesmo

De se chamar ação (…)”

Artes, Ciências e Humanidades - Dinamismo e Incertezas - Filosofia e Espiritualidade - Cidadania

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