Final de ano costuma vir acompanhado das ponderações necessárias, como o rascunhar a vida para o ano seguinte… entrelaçar passado, presente e futuro… experiências vividas e outras tantas por viver… Não permitamos que a ansiedade caótica e galopante destes velozes tempos líquidos, sempre a nos cobrar posturas maquinais ou supra-humanas, nos roubem deste balanço.

Foi neste espírito que me percebi envolvida em profundo exercício biográfico, em meio a papeis e lembranças… Revisitei lugares, pessoas, sensações, emoções e sentimentos. Em muitos me reconheci, em outros tantos me estranhei… Curioso como teimamos em buscar grandes aventuras fora, sendo que a maior delas sempre se passa dentro.

Regressei até meus 16 anos, diante das faculdades de Direito e Engenharia… Hesitei ir além, risco de overdose iminente. Já tinha um bom material de trabalho.

Observei, quase em transe meditativo, os fatos serem a mim apresentados. Não me agarrei a nenhum deles, embora os honre e façam parte de mim, não me definem!

Em enlevo de encantamento, percebi o desenrolar dos acontecimentos… Insights, anseios e receios, dúvidas e decisões… reorientavam desde caminhada até caminhante e caminho. Tudo em um continuum plástico e elástico, que absorvia outros tantos momentos e movimentos… em fraterno abraço envolvia companheiros de jornada, em tempos de maiores ou menores consciência e consistência, sem deixar de ser único.

Revisitei papeis… Filha, irmã, amiga, mulher, mãe… Profissional, cidadã… Precipitações e aconchegos, tormentas e calmarias… me deixavam cara a cara com a ancestralidade que carrego e que manentemente me projeta rumo ao futuro. Sempre que não marcava presença a ingênua, quando não medrosa e arrogante, prepotência do controle… ocasião em que tudo embaçava e desconectava.

Distanciamento é condição de presença! Assim como livre-arbítrio é de destino… Foram momentos, mas vibra em cada pedacinho do meu ser o brilho promovido pela combustão da experiência.

No alto dos meus cinquenta anos só percebo como o tempo voou quando identificada com a dimensão do EU ESTOU. Para o EU SOU, meu tempo é sempre agora! Não corre o risco de engessar condutas e comportamentos, abortar encontros, nem de ofuscar utopias…

Que se dissolvam neuras e separatividades, despidos de adereços e fantasias delirantes… que sobre ganas de fazer valer quem somos e imaginação fértil da entrega, vestidos de coragem… para desaguar no infinito atemporal de nós mesmos.

Renasçamos! A época nos solicita… Convertamos em Natal a nossa existência, sempre pronto a polinizar Novos Anos… Que a manjedoura sagrada abrigue a chama plena, mesmo diante dos pesados ventos dos tempos. Continuemos a percorrer, sinalizar e lançar pontes… Com brilho nos olhos e força nas pernas, resistamos! Por tudo que temos de humanidade, sonho e potência de realização…

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.