ELOGIO DA LOUCURA, Erasmo de Rotterdam — Impressões

Estamos no auge do Renascimento, séculos XV e XVI. Erasmo é um homem voltado para questões terrenas e objetivas, sem preocupações intelectuais e espirituais. Encarna o próprio “pé no chão”, espírito típico de sua época. Na narrativa busca criar o homo universalis, que ele próprio representava. Além de “Elogio da Loucura” sintetizar um momento histórico, seu autor é ovacionado como “príncipe do humanismo”, o “primeiro homem moderno”.

Contexto (na continuidade da chamada introdutória)

Curiosamente, mesmo representando uma ruptura com o socialmente estabelecido, Erasmo era extremamente bem aceito em todas as rodas sociais, isso em plena Inquisição! Era tanto erudito quanto popular… Praticamente uma unanimidade… Todos o liam, todos o ouviam… Viajava constantemente, concedendo status e ampla repercussão aos locais onde se instalava. Sua sorte, pois os perrengues financeiros eram frequentes.

A fama e ampla aceitação que teve em vida contrasta com o que ocorre após sua morte: suas obras passam a ser veementemente condenadas.

Filho de um padre e uma mulher burguesa, um escândalo para a época. Aos 11 anos de idade, com a falta de ambos, Erasmo é encerrado num convento pelo tutor. Ele resolve, então, se voltar para os estudos, o que faz dele quem é. Na época já lia perfeitamente Horácio (65–08 / poeta lírico e sátiro romano, além de filósofo) e Terêncio (185–159 / dramaturgo e poeta romano). Quando finalmente tem a permissão de deixar o convento se lança em viagens. Apesar de sua formação como teólogo, Erasmo jamais abraçou o catolicismo. Muito pelo contrário, é importante enfatizar que toda a luta que travou, sempre dentro do próprio seio da Igreja, foi veementemente contra o catolicismo, jamais contra o cristianismo.

Algumas ideias que marcam o pensamento e a vida de Erasmo:

  • Não são as coisas materiais que nos fazem grandes
  • Exaltação da diplomacia, do caráter conciliador
  • Repúdio a guerra
  • Importância do saber

Sua obra “Adágios”’ é uma coletânea imensa de citações, uma demonstração do seu notável conhecimento. “Colóquios”, mais do que o ensino de latim é um tratado moral. “Civilidade Pueril”, destinada à educação infantil, traz uma série de normas de conduta objetivando o bem estar social. E por aí vai…

“Elogio da Loucura”, sua mais célebre obra, escrita em tom de forte sátira, como forma de passar os dias na casa de Thomas More (1478–1535 / filósofo, advogado, diplomata e escritor inglês), na Inglaterra, em 1508, é impactante pela atualidade. Publicada pela primeira vez em 1509, em Paris, a obra trata de temas diversos, varre assuntos muito polêmicos, dá o que falar até os dias de hoje. Alguns exemplos:

  • Mendicância de monges e padres (em parte, em benefício próprio)
  • Crítica à medicina
  • Maus tratos as criança
  • Questão dos hereges
  • Procedência do dinheiro
  • Apresentação de Deus como tirano
  • Luta entre luz e trevas
  • Comportamento da nobreza

A título de curiosidade… Reza a lenda que o autor, um dos grandes ícones do humanismo, teria escrito a obra em sete dias, em meio a uma avassaladora crise renal. O próprio Erasmo a define como ensaio, sem o menor intuito de querer provar teorias. Ele apenas deixa que fluam gostos e ideias.

“Embora os homens costumem ferir a minha reputação e eu saiba muito bem quanto o meu nome soa mal aos ouvidos dos mais tolos, orgulho-me de vos dizer que esta Loucura, sim, esta Loucura que estais vendo é a única capaz de alegrar os deuses e os mortais.” (Discurso de Erasmo, página 13, op.cit.)

“Quanto a mim, deixo que os outros julguem esta minha tagarelice; mas, se o meu amor-próprio não deixar que eu o perceba, contentarme-ei de ter elogiado a Loucura sem estar inteiramente louco. Quanto à imputação de sarcasmo, não deixarei de dizer que há muito tempo existe a liberdade de estilo com a qual se zomba da maneira por que vive e conversa o homem, a não ser que se caia no cinismo e no veneno. Assim, pergunto se deveria estimar o que magoa, ou antes o que ensina e instrui, censurando a vida e os costumes humanos, sem pessoalmente ferir ninguém.” (Carta de Erasmo à Thomas More, página 11, op.cit.)

“É uma sátira extraordinariamente interessante, na qual os potentados da época e sobretudo os homens da Igreja são impiedosamente escalpelados pela ironia incomparável do grande escritor.”(Nota da Editora, página 05, op. cit.)

O Renascimento

Termo cunhado para designar a ideia de que “o tempo volta”. Apesar de ter como berço a Itália, seu epicentro, o Renascimento se fez presente em todos os países, que sentiram e viveram o período à sua maneira singular.

O Renascimento de Erasmo é o dos Países Baixos, a Holanda lutando constantemente contra a invasão do mar. O Renascimento holandês é prático, direto, sem a languidez característica da beleza pela beleza. Enquanto a Holanda criava e recriava constantemente a natureza, a Europa usufruía da natureza, tamanha as diferenças geográficas e os desafios que a região impunha. Pensemos na Itália: aberta, ensolarada… Apesar de estar cercada por águas, não está atolada como a Holanda, naturalmente outro espírito a move.

Como pequeno exemplo da geografia interferir na nossa percepção de mundo e, consequentemente, na própria Estrutura de Pensamento. Analisando duas telas que marcam o espírito renascentista dos países baixos, “Adoração do Cordeiro Místico” e “O Casal Arnolfini”, ambas do notável mestre Jan Van Eyck (1390–1441 / Pintor flamengo, região dos Flandres, norte da Bélgica / “Podia converter em pinceladas tudo o que via e imaginava, considerado o criador da pintura a óleo”), destacamos as maiores características: a praticidade (pega exatamente o que vê) e o completo domínio da realidade (olha a realidade com lupa, em detalhes). As figuras não são idealizadas como no renascimento italiano. É impactante o domínio da técnica, o controle supremo do artista. A busca incessante pela perfeição salta aos olhos.

O Renascimento surge paulatinamente com o final do século XIII, com as últimas catedrais góticas sendo construídas. Características como a busca da beleza pela beleza, o hedonismo, a descoberta da natureza, o surgimento do individualismo (se entender sozinho na existência) e as escavações buscando reencontrar o passado, permeiam os séculos posteriores.

Bem mais que um movimento artístico e arquitetônico que revive a cultura greco-latina, o Renascimento é um movimento socioeconômico e político cultural. Tudo estava mudando… Florença era o berço da nova era. O lema era o humanismo, as coisas do homem. Começa-se a ter orgulho dos contemporâneos!

O homem passa a ser a medida de todas as coisas, isto já era utilizado na Idade Média, mas se tornou basal no Renascimento. A ciência da fisiognomonia relacionando as proporções do corpo humano com as medidas de ouro (proporções áureas) marcou a arte nas suas diversas formas de expressão (pintura, escultura, arquitetura, engenharia, urbanismo…). Orgulho, lucro: antes execrados, passam a ser louvados. O status: passa a ser construído, não herdado. Passa a valer o esforço. Emerge uma valorização da natureza, da vocação do indivíduo.

A Sexualidade da Época

Nunca regras morais existiram com tanta força e nunca a sexualidade se expressou com tanta veemência. Apesar de severa repressão, a promiscuidade reinava. As práticas eram bem mais explícitas do que hoje.

Consistia hábito entre os senhores dividirem as mulheres com seus hóspedes, sempre que fossem mais asseados. Os menos asseados dormiam nos estábulos, junto aos animais. Não se tratava de ofensa, mas de prática corriqueira. Os nobres apresentavam publicamente seus amantes, homens ou mulheres, fossem relacionamentos heterossexuais ou homossexuais. Os banhos eram públicos. A visão do corpo era algo extremamente normal.

A Loucura em Erasmo

Remontemos um pouco a sua formação, sua fundamentação no convento da Ordem “Irmãos da Vida Comum”. A Ordem se baseava em princípios como: propagar uma religião simples (prática); abominar dogmas; não admitir rituais padronizados (ridicularizavam os sacramentos e as cerimônias religiosas); existência da religião para o bem do homem e não para a glória da Igreja (cristianismo como base ética do homem, negavam a autoridade infalível do papa); superioridade da razão acima da fé; superioridade da conduta humana sobre o dogma; superioridade do indivíduo sobre o sistema organizado (o que não quer dizer que não reconhecessem o valor da hierarquia, muito pelo contrário); tudo pode ser alcançado vencendo a ignorância.

Os Primeiros Loucos e os Dois Tipos de Loucura

O primeiro grande louco da história, dentro do campo mítico foi Dionísio (Baco), fruto de uma escapadela de Zeus com Sêmele, uma mortal. Zeus lhe atribui o poder do êxtase. Hera, buscando vingança pela traição de Zeus, lhe impinge a loucura. Assim, divindade e materialidade se cruzam. Dionísio é associado ao vinho justamente pela doce embriaguez que causa aos homens.

Outro louco mítico, Hércules, também filho de Zeus com uma mortal. Temendo a vingança de Hera, Zeus providencia para que o bebê Hércules beba seu leite, tornando-o imortal. Hera, descontrolada por ter sido ludibriada e agora não poder atacar o imortal Hércules, trama e lança a loucura furiosa sobre ele. Hércules acaba matando seus únicos filhos e também sobrinhos. Logo depois da tragédia consumada, Hera devolve a lucidez de Hércules para que ele sofra com seus terríveis feitos. Daí os famosos Doze Trabalhos de Hércules, uma forma de redenção.

Aparece o duplo aspecto da loucura. Vemos uma loucura insana, completamente inconsciente e fora de controle. Mas também uma loucura transformadora, que remete a intuição e a fidelidade a nós mesmos, uma loucura que nos conecta com o que há de mais integral. A loucura passa a ser associada à transformação!

No Tarô a carta do louco é como o curinga do baralho, tudo pode acontecer… Quem define é a próxima carta, a próximo passo que damos na caminhada da vida.

Um trecho do Evangelho: “A sabedoria dos homens é loucura aos olhos de Deus; a sabedoria de Deus é loucura aos olhos dos homens”.

Em Nietzsche (1844–1900 / filósofo, filólogo, crítico cultural, poeta e compositor prussiano / forte predileção por metáfora, ironia e aforismo), o louco tem uma lucidez desconcertante! O homem louco brada que Deus está morto. A humanidade o matou. Nossas Igrejas são seus mausoléus e túmulos.

A Loucura de Erasmo, loucura de todos nós

Ouvindo dois tipos completamente distintos de música nos voltamos para o universo de Erasmo. O canto gregoriano: plano, de um só tom voz! Em contraste, uma típica música renascentista: polissonante, diversos tons de vozes (incluindo vozes femininas) e instrumentos musicais!

Erasmo se insurge contra a multiplicidade exacerbada dos tons sobre tons, contra a variedade de loucuras. As elogia se voltadas ao homem, mas as repudia como louvor a Deus.

O louco de Erasmo somos todos nós. Sua loucura não é a loucura tradicional. Erasmo não mostra necessariamente a loucura transformadora, embora simpatize com ela, ele mostra o outro lado! Todos os relatos que ele nos faz são contra exemplos da virtude da loucura.

Num primeiro momento Erasmo concentra nas atitudes humanas. Depois, numa segunda parte, apresenta a loucura como o tempero da vida! Finaliza defendendo uma transcendência do humano (animal, instintivo, insano) a caminho do divino.

A loucura está em todos os níveis! A mitologia grega reflete as experiências humanas, nossas paixões, nossos vícios… Erasmo usa dos exemplos dos deuses mitológicos sem pudor, para que o homem viva conscientemente sua humanidade, sua materialidade, para depois transcendê-la.

A loucura de Erasmo busca uma livre interpretação dos textos bíblicos. Ele critica as traduções da Bíblia, aponta seus erros. Busca o discernimento humano, promove o verdadeiro (porque consciente) encontro do homem com o divino.

O Erasmismo, a propagação das ideias de Erasmo, expressa o desejo de reforma das mentes e do modo de estar na vida: o autoconhecimento; o juízo crítico; o discernimento; o sentido prático, ético e moral de se viver como cristão.

Erasmo fez uso da Razão no sentido de mediação entre pensar e sentir, não como simples racionalidade, intelectualidade.

Fontes Consultadas:

ROTTERDAM, Erasmo. Elogia da Loucura. Ponta Grossa: Atena, 2002.

Produção de Conhecimento da Academia Cultural / Instituto ORIOR, onde a obra foi amplamente analisada e discutida, em Março de 2003. Facilitação de Arnaldo Alvarenga. Mediação e compilação de Ana Rita de Calazans Perine.

ANEXO

Aporte a leitura de Erasmo

Como aporte aos estudos de “Elogio da Loucura” e as críticas de Erasmo lá contidas, considero extremamente enriquecedor (recomendo fortemente) a leitura de “O Passeio do Cético ou As Alamedas”, de Denis Diderot (1713- 1784): Filósofo, escritor, enciclopedista e iluminista francês. Graduado em Arte. Grande estudioso de leis, filosofia e matemática. A investigação da natureza humana e a admiração pela vida o definiriam mais, penso eu, do que a qualificação de ateu do materialismo científico, como insistem muitos.

Em traços muitos gerais, o que a narrativa, permeada de ironia fina do início ao fim, propõe:

Somos recrutados em sono profundo, vestidos com uma roupa branca e com uma venda ridiculamente enrolada nos olhos… Três são os caminhos que nos conduzem ao céu, “a corte do monarca”. Monarca: Deus. Príncipe: Jesus. Soldados: humanidade dividida em hierarquias várias. Vice-rei: Papa. Desertores: Teólogos. E por aí vai…

  • Alameda dos Espinheiros — Caminho longo, estreito, escarpado, cheio de pedras e espinhos. Extravagâncias das religiões: disciplinas, máscaras, devaneios piedosos, bugigangas místicas, receitas para prevenir manchas de roupas ou para limpá-las, instruções para segurar bem a venda nos olhos. Ocupada por pessoas que estudaram muito, que se vangloriam de conhecer o Príncipe e o Monarca, que os mostram aos passantes mas não têm a simplicidade de segui-los, a noite correm para a alameda das flores…
  • Alameda das Flores — Caminho amplo, agradável e colorido oculta desigualdade, tortuosidade e insegurança. Vaidade dos prazeres do mundo: leitos de relva e ninfas cujos atrativos, negligenciados ou utilizados não anunciam nenhuma crueldade. Jovens da Alameda dos Espinheiros, entediados com a venda nos olhos, passeiam livremente na Alameda das Flores e conversam com os filósofos, ao anoitecer e em segredo, na Alameda das Castanheiras, onde tentam curar sua embriaguez das flores…
  • Alameda das Castanheiras — Caminho mais cômodo que o caminho dos Espinheiros, menos agradável que o das Flores, mais seguro que ambos, mais difícil de seguir até o fim. Incerteza dos sistemas da filosofia: esferas, globos, telescópios, livros, sombra e silêncio. Não há templos, nem altares, nem sacrifícios, nem guias. Não se segue um estandarte comum, não há regulamentos gerais. Multidão dividida em bandos mais ou menos numerosos, todos ciosos de sua independência. Gostam de debater, mas a diversidade das opiniões não altera as relações de amizade nem enfraquece o exercício das virtudes, adversários são atacados sem ódio, triunfos não resultam em vaidade…

NOTA — Inevitável deixar de correlacionar as Alamedas às três salas de “A Voz do Silêncio”, de H. P. Blavatsky, um clássico da Editora Pensamento: ignorância, aprendizagem e sabedoria. E com o caminho que, embora único, encontra tantas bifurcações quanto às naturezas humanas.

(Texto de Outubro de 2019)

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.