DEPENDÊNCIA, ESTADO E LIBERDADE

Amanheci conferindo rapidamente as redes sociais e demoradamente debates em alguns Grupos. Sim, pasmem, diálogos salutares acontecem, ainda que em ar tão rarefeito e pouco dado a pesquisa, respeito, generosidade e distanciamento crítico quanto o nosso. Resultado: oxigênio precioso e fonte de muito aprendizado.

Um dos Grupos de Filosofia Clínica de que participo, através de um vídeo de Gregorio Duvivier sobre Comunidades Terapêuticas (https://youtu.be/vdIfP6-urIg), reacendeu o debate sobre drogas, trato de dependentes químicos, loucura, omissão do Estado e real capacidade de vestirmos a pele do outro.

Muitas ponderações pipocaram (devidamente referendadas para aprofundamento), assim como troca de impressões e experiências, o que sempre é tremendamente enriquecedor.

O que me move aqui é observar o quanto nossa forma mental, enquanto Estrutura de Pensamento, é capaz de nos apartar do mundo do outro e do nosso próprio, dilacerando, em verdadeiras Armadilhas Conceituais, os frágeis sensos de conexão (histórico, com a natureza, comigo mesmo e com os outros, com as organizações), necessários não só para a manutenção de uma vida saudável e equilibrada, onde atrito e estresse não se apresentem de forma ininterrupta e continuada, como para a transformação da sociedade em que vivemos. Para melhor, nunca é demais frisar, já que o fundo do poço parece não ter fim.

Não há quem não sucumba a tamanha e tantos níveis de violência, alguns subliminares, de tão sutis. Para percebê-la muitas vezes se fazem necessários exercícios de Deslocamentos Longos e Recíprocas de Inversão, capazes de nos tirar, ainda que momentaneamente, da pseudo zona de conforto em que nos abrigamos.

Por outro lado e também como facilitador destes movimentos, verdadeiros exercícios humanos que nos permitem atravessar tantas distopias, cada um de nós é capaz de detectar o que nos reenergiza e põe renovado brilho no olhar. Não como fuga, friso aqui novamente, mas como forma de recarregar as baterias e estimular nossa caminhada. Afinal, não há expiração sem inspiração, é da vida!

Um pouco do meu “barato”, a “Nárnia” onde me refugio e reenergizo em momentos cruciais é o mundo arquetípico (inteligível, das ideias) tão bem estruturado nos Diálogos de Platão, sobretudo em “A República”, onde nos estimula a sair da opinião vulgar e buscar, em um esforço consciente, a reta opinião, ciente de que o que é mesmo, não é de forma total e verdadeira.

Mergulhar em sua sociopolítica é verdadeira ode a Justiça, tão sonhada e tão pouco vivida… Platão amplia o conceito de civilização a propulsor da evolução humana, e o faz a partir da tríade Indivíduo / Sociedade / Estado, sendo: o Indivíduo pensado e fortalecido como Unidade; a Sociedade como conjunto de indivíduos relacionados para um fim primordial comum, Justo e Necessário; o Estado como potência em ato de governo, que vai além das aparentes satisfações biológicas e sensíveis dos seres humanos, que transcende grupos, interesses e subestruturas.

Naquelas linhas nada no Universo teria que ser extinto, apenas colocado no seu devido lugar. Há reconhecimento e valorização das naturezas distintas. Tudo seria feito para o Bem do ser humano, que também seria o Bem do Estado. Essa inclinação natural para o Bem viria da Educação. Sendo Bem tudo que une e Belo, tudo que é necessário. O homem mais feliz (mais sábio, melhor e mais justo) seria aquele com maior controle de si mesmo, capaz de acessar os três prazeres: do desejo, do sentimento e da razão. O Mal na Natureza: a Ignorância, separa por não saber como relacionar. A verdadeira revolução se faria com o melhor existente no humano, não com o sentimento de revolta. E por aí vai...

Para mim, Platão em particular e a Filosofia em geral sempre chega como um banho de sentido e significado. O que imagino faltar em boa parte dos dependentes, sejam químicos ou de ideologias, uma fome que não pode ser saciada por um prato de arroz e feijão, mas que fere tanto a dignidade humana quanto aquela, que atinge milhões de brasileiros e cresce assustadoramente à revelia do próprio Estado.

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.