CLARICE LISPECTOR

“Cuidado com Clarice, advertiu um amigo a uma de suas leitoras, décadas atrás: Isso não é literatura. É bruxaria.”

Benjamin Moser, organizador de “Clarice Lispector — Todos os Contos” / Rocco, 2016

Escritora e jornalista brasileira, formada em Direito, nascida em Chechelnyk, Ucrânia, em 10 de Dezembro de 1920, Chaya Pinkhasivna Lispector vem para o Brasil aos dois anos de idade, acompanhando a família de origem judaica — Pinkhas e Mania Lispector, seus Pais — refugiada da perseguição aos judeus durante a Guerra Civil Russa. Assim que chegam ao Brasil, todos mudam de nome. Fixam residência em Maceió, depois Recife e Rio de Janeiro, cidade na qual vive dos 12 anos aos 23 anos. Com 23 anos recém completos publica “Perto do Coração Selvagem”, de estrondoso sucesso, era 1943. No mesmo ano, já casada com o diplomata Maury Gurgel Valente, muda-se para o exterior, segue escrevendo e editando suas obras. Retorna para ficar definitivamente no Rio em 1959, separada e com dois filhos: Pedro Lispector Valente e Paulo Gurgel Valente. Nesse ínterim lendas em torno de seu nome florescem e a encobrem com uma aura de mistério que não só perdura como é intensificada nos dias de hoje, muito pelo poder de propagação da internet que vincula, junto ao seu nome, desde frases soltas (algumas contestáveis) até fragmentos de montagens teatrais que retratam vida e obra. Por conta de um câncer no ovário, falece em 09 de Dezembro de 1977, um dia antes de completar 57 anos.

Clarice Lispector é mundialmente reconhecida dentre os maiores escritores do século XX e a maior dentre os escritores judeus depois de Franz Kafka (autor de “Metamorfose”, 1915). Irei me referir a ela no presente, pois está viva e pulsante em cada palavra habilmente registrada com sua rica paleta do sentir. Clarice sabe ser profunda e visceral, muitas vezes nos leva a nocaute por isso, como no interlóquio do conto “Obsessão”:

“Como entender-me? Por que de início aquela cega integração? De que matéria sou feita onde se entrelaçam mas não se fundem os elementos e a base de mil outras vidas? Sigo todos os caminhos e nenhum deles é ainda o meu. Fui moldada em tantas estátuas e não me imobilizei…”

De espírito inquieto e questionador, ainda que não goste de autobiografia, deixa entrever em seus textos ela mesma e o forte incômodo diante do mistério que é o existir. Navega pelas sutilezas da condição humana, aborda o choque entre as expectativas e a realidade crua da vida. Não respeita gêneros literários, o que importa é transformar indignação em texto. Cria com a dor. Escreve para tornar a vida tolerável. Dela: “A palavra é um domínio sobre mim”…

Afirma não temer nem chuvas tempestivas nem grandes ventanias porque também é o escuro da noite. Define-se como tímida e ousada ao mesmo tempo. Referindo-se a vida: “é como um soco na boca do estômago”. E ao viver: “a capacidade de me renovar a medida que o tempo passa”.

Na infância já escreve estórias que não tem fim, segundo ela. Os textos da adolescência, ela classifica como caóticos e intensos. Considera-se escritora amadora e assim quer ser vista para manter sua liberdade, não quer o compromisso profissional de tempos e prazos. Diz que seu objetivo não é nenhum outro além de escrever, não tem a arrogante pretensão de querer mudar as pessoas ou o mundo. Dela: “No fundo a gente não está querendo alterar as coisas, está querendo desabrochar”.

Liga as palavras com delicadeza e força singulares. Refuta ser sua escrita hermética: fechada, de difícil compreensão. Ela faz questão de ser entendida pelo leitor e não raro esclarece e se desculpa por algo dúbio que possa ter redigido. Clarice lembra que “entender não é uma questão de inteligência, é de sentir, entrar em contato.”

Indagada sobre a diferença de escrever para crianças e para adultos… Diz que se comunicar com adultos é difícil porque a faz se comunicar com o mais secreto de si mesma, adultos são tristes e solitários. Por outro lado, se comunicar com crianças é fácil porque é maternal e as crianças tem a fantasia solta.

As metáforas, a intensidade e o caráter intimista jorram de seus escritos. Não refuta a angústia, pelo contrário, a acolhe. Através dela se lança na busca por tocar sua essência e alcançar o cerne da existência. Escrever para ela é sentir-se viva. Escreve pelo gosto e necessidade de aprofundar o que sente.

De uma de suas últimas entrevistas, já doente, concedida a TV Cultura, em Fevereiro de 1977:

“Escrever é uma maldição, mas uma maldição que salva… Quando eu não escrevo, eu estou morta”

“O pequeno êxtase da palavra fluir do pensamento e do sentimento: nessa hora, como é bom ser uma pessoa”

“Meu mundo é feito de pessoas que são as minhas, eu não posso perdê-las sem me perder”

“A raiva é a minha revolta mais profunda de ser gente. Ser gente me cansa. E tenho raiva de sentir tanto amor. Há dias que vivo da raiva de viver. Porque a raiva me envivece toda: nunca me senti tão alerta”

Clarice não se permitia decifrar, tinha um humor fino e a fantasia como fiel escudeira. Certa vez, no Egito, diante da Esfinge, com a pronúncia que lhe caracterizava (não era sotaque, provinha da língua presa que nunca quis operar), teria dito: “eu não a decifrei, mas nem ela a mim”. Em outra ocasião, para as recorrentes visitas ao médico em função da avançada doença, chama um táxi e ordena ao motorista: “vamos ao hospital, mas faça parecer ser um passeio”.

Entre tanto de Clarice que me encanta, deixo um trecho que de um lado resgata a impossibilidade de tudo abarcar e conhecer, de outro celebra a busca inserida na natureza humana. Aí me permitem uma rápida e singela digressão, pautada na história da filosofia, Grécia Antiga…

Sócrates, por sua célebre afirmação “Só sei que nada sei” foi considerado o mais sábio entre os sábios, além de reiterar o que Pitágoras, antes dele, já vivia: o filosofar como amor e busca pela sabedoria, bem diferente de julgar-se possuidor dela. Platão, por sua vez, na mesma linha de raciocínio de seu mestre (Sócrates), defendia a plasticidade do conhecimento: quanto mais amplio o universo conhecido, quanto mais conheço, mais percebo o quanto ainda tenho por conhecer. Ele afirmava: “o que é mesmo, não o é de forma total e verdadeira”.

Voltando para a Clarice… De “A Descoberta do Mundo”, coletânea póstuma de suas crônicas no Jornal do Brasil:

“Não entendo. Isso é tão vasto que ultrapassa qualquer entender. Entender é sempre limitado. Mas não entender pode não ter fronteiras. Sinto que sou muito mais completa quando não entendo. Não entender, do modo como falo, é um dom.

Não entender, mas não como um simples de espírito. O bom é ser inteligente e não entender. É uma benção estranha, como ter loucura sem ser doida. É um desinteresse manso, é uma doçura de burrice. Só que de vez em quando vem a inquietação: quero entender um pouco. Não demais: mas pelo menos entender que não entendo.”

Não entendendo, Clarice entende muito!

NOTA — Link para o Especial “CLARICE LISPECTOR 100 anos”: https://youtu.be/fs0Rt-_vkMM

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Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

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Ana Rita de Calazans Perine

Ana Rita de Calazans Perine

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

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