AUSCULTA NA ESCUTA — Humanização da Medicina e Repercussões na Saúde Mental

Embora o procedimento da ausculta — maneira de ouvir atentamente os sons do interior do corpo do paciente — figure na propedêutica clínica, junto a outros que demandam os sentidos despertos do médico… Como seu tempo se mostra no tempo da consulta?

Não raro a anamnese de postos de saúde consiste de duas perguntas e de nenhum toque. As perguntas: o que você está sentindo (qual seu incômodo, queixa) e o que você costuma tomar para isso.

Michel Foucault indagava… “Por que foi que fizemos dos manuais de diagnósticos a bula da vida?” Nós nos perguntamos… Até que ponto a Classificação Internacional de Doenças (CID) é regulada pelo lobby da indústria farmacêutica? A força dessa regulação não corre sério risco de ferir as bases da Medicina (respeitar a vida humana, sua autonomia e dignidade), justo por ceifar a singularidade e corromper a relação médico / paciente?

Antonin Artaud — artista plástico, poeta, ator, dramaturgo e pensador francês — foi tido como louco e internado por nove anos. O tratamento a que foi submetido prejudicou memória, corpo e pensamento. Ele escreveu aos diretores dos Asilos de Loucos: “Senhores, as leis e os costumes concedem-lhes o direito de medir o espírito. Esta jurisdição soberana e terrível, vocês a exercem seguindo seus próprios padrões de entendimento… a credulidade dos povos, dos especialistas, dos governantes reveste a psiquiatria de inexplicáveis luzes sobrenaturais. A profissão que vocês exercem está julgada de antemão; não pensamos em discutir aqui o valor dessa ciência, nem a duvidosa existência das doenças mentais; porém para cada cem classificações, onde as mais vagas são também as únicas utilizáveis, quantas tentativas nobres se contam para conseguir melhor compreensão do mundo em real, onde vivem aqueles que vocês encarceraram?”

Contestador nato, talvez por isso rebelde, maldito e marginalizado. O grito de Artaud é por mais vida. Sua busca, a compreensão do sentido vital, existencial e político do ser humano que precisa se refazer constantemente na direção de sua própria humanidade. Dialogaram com seu pensamento: Picasso, Simone de Beauvoir, Sartre, Lacan, Derrida, Deleuze, Guattari…

Há um metadiálogo interessantíssimo contido no “Guia Incompleto de Imunologia”, de 1993, de Nelson Vaz e Ana Maria Faria, intitulado “Goiaba, Goiabeira…”, onde pai alerta filha sobre a diferença entre o que se faz e o que se é. Parece valer não só para goiabas…

Nota — Texto introdutório ao Episódio MEDICINA, do Canal de Podcast FILOSOFIA CLÍNICA / Diálogos Transversais, disponível nas principais plataformas de áudio… https://anchor.fm/anaritadecalazansperine

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

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