AS PESSOAS DE PESSOA

Dormi e acordei agarrada a Pessoa. Impacta a cada leitura, conduz a outros sítios, arqueologia de mim...

De quem é o olhar
Que espreita por meus olhos?
Quando penso que vejo, 
Quem continua vendo
Enquanto estou pensando?

É curiosa essa singularidade que imprime na gente características tão próprias de ler a nós mesmos e o mundo, além de ditar a maneira pela qual administramos os possíveis cenários que essas leituras descortinam.

Encadeados ou não, ampliados ou não, luminosos ou não, inclusivos ou não… os cenários possibilitam histórias e conversações desveladas a cada instante.

Cocriados na junção tempo e espaço, enredos e personagens passeiam pelo fluxo da existência. Amálgama misteriosa de nós mesmos a espera de ser decifrada.

Em alguns momentos, como bucólica cidade, vizinhanças instigam e convergem. Noutros, como ruidosa metrópole, repelem e fragmentam.

Deixo de me incluir dentro de mim. Não há um cá-dentro nem um lá-fora...

Troco de papéis com Pessoa com uma desenvoltura que por vezes desconcerta. Ora coloco ele no divã, ora deito eu, ora nós dois e “dá-lhe tricô”!

Devassa na solidão, provocam as construções compartilhadas entre os heterônimos dele e os que trago. Nessa dança rodopiamos, nossos ortônimos emergem, se encontram e se saúdam.

Carrego tanto deles em mim… Ainda que passeie pelas biografias e percepções de Ricardo Reis, em odes clássicas, de Álvaro Campos, desalento de questionador inconformado, de Bernardo Soares, movido a férteis desassossegos, é com Alberto Caeiro, meu neopagão predileto, que deito na relva. Custo entender o porquê de o associarem a antimetafísica, é ele quem mais se aproxima das estrelas!

Quando o pensar extirpou o sentir? Em que momento a Terra foi proibida de se elevar para o abraço do Céu? Por que a sensação foi ridicularizada e inibida a intuição? De onde nasce esse temor descabido que nos furta a experiência e nos impede de ver na materialidade a presença viva do Mistério que convencionamos chamar Deus?

Sou um guardador de rebanhos.
O rebanho é os meus pensamentos
E os meus pensamentos são todos sensações.
Penso com os olhos e com os ouvidos
E com as mãos e os pés
E com o nariz e a boca.

Banho de chuva, cheiro de terra molhada, sol aquecendo a pele, café recém coado, pão saído do forno, bibliotecas, olhar desejado… Neles aterrados, saímos do chão!

Através de seus heterônimos Fernando Pessoa parece ter encontrado um modo próprio de preservação: neutralizar afetos.

A depender do estímulo, responde na direção de amenizar a força do impacto, ativando uma ou outra de suas personas.

Comportamento & Função. Escrevo para não enlouquecer. Dou vazão a minha freiada expressão. Engano o medo, me lanço no espaço. Quatro, três, dois… um! Cá estou, aqui e agora, presente.

O que nos toca é capaz de nos mudar. Quanto mais estatelados no chão da vida, mais sentimos a próprio pulso e introjetamos a intenção ascensional do pulsar.

O Cara parece não dar ponto sem nó! Ainda que volta e meia questione a insensatez desse ir e vir. Se Roda Gigante pode causar náuseas e vertigens, imaginem a de Samsara…

Meu papo com Ele sempre foi reto! Em alguns momentos, bem sei, exagero no pensamento crítico, mas argumentando ou esbravejando, não largo Sua mão.

Pode haver beleza na dor… Tanto quanto sutileza na densidade… Loucura na genialidade… E perfume na flor!

De qualquer forma, Sr. Mistério… Bem sabes que há muito dispenso anestesia, mas vais devagar… Mesmo que o andor não transporte santo de barro, ele pode ser de pau oco, onde a santidade não cabe!

O poeta é um fingidor.
Finge tão completamente
Que chega a fingir que é dor
A dor que deveras sente.

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Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

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Ana Rita de Calazans Perine

Ana Rita de Calazans Perine

Filósofa Clínica, Pesquisadora, Educadora, Mobilizadora Social e Empresarial / Instituto ORIOR — Resgate Filosófico, Transdisciplinaridade e Sustentabilidade.

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